quarta-feira, 24 de abril de 2013

O BICHO QUE MORA AQUI DENTRO

Quando percebi, ele já tinha chegado. 
Feroz, brutal, pronto para o ataque.
Não sei bem de onde veio, mas estava ali na minha frente, faminto. 
Ao me deparar com seu porte, nem tentei resistir, fiz-me presa vencida e deixei-o se apossar de meu corpo.
(...)
Agora eu era o próprio bicho e queria destruir o que encontrava pela frente. 
Minha agressividade crescia, cravando palavras afiadas nas criaturas que cruzavam meu caminho. Feridas, golpes e arranhões foram distribuídos. 
Não houve vítimas letais, mas eu fui gravemente atingida.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

HAY QUE ENDURECER PERO SEM CONGELAR

O mundo nos exige resistência. Ele não pede não, exige.

Já na primeira tarefa do dia, resistimos. Ao sono. E depois, seguimos por um cotidiano minado de testes de resistência. Resistir aos impulsos, insistir no relatório. Não cair em tentação, não deixar a peteca cair. Segurar a onda do namorado, segurar marido, segurar as despesas, segurar o choro, segurar as expectativas, estar seguro.


Desde cedo, passamos por um treinamento espartano para o endurecimento. Na escola, na família, com a turma de amigos, com o pessoal do trabalho. A ordem é endureça-se. Afinal, você não quer parecer uma criança mimada e muito menos um maricas. Vamos, fique firme, não esmoreça, desse jeito vão achar que você é fraco, ou pior ainda: um fracassado. Não, não, tudo menos isso!


Ser tachado de fracassado em nossa atual sociedade é pior que qualquer coisa. Um homem pode ser o cidadão mais infeliz do mundo, mas não pode receber este temido adjetivo (temido, não, pois só tem medo quem é fracote). E por quê? Porque isto afirma que ele não se adaptou, não obteve o tal sucesso, não venceu na vida o coitado. Pois é aí que mora a raiz da questão, no conceito de vencer. Ora, para existir um vencedor, é preciso que haja um perdedor, é preciso uma comparação, uma competição. O que foi, tá com medinho de partir pra briga? Olha lá, não vá amarelar, hein! Desse jeito vão ficar com pena de você, já pensou que vergonha!


É a lei da selva. A floresta agora é cinza, mas a competição continua reinando. Se na época das cavernas vencia o fisicamente mais forte, agora vence o emocionalmente mais endurecido.


Sabe, andei pensando, o que adianta vencer (entre aspas) se muitas vezes isso não significa ser feliz? Isso aqui não é livro de autoajuda (coisa para os fracos), é pura constatação. Não seria muito mais coerente buscarmos vencermos a nós mesmos, nossas batalhas internas e externas? E para esta história ficar mais atrativa, podemos nos dar um prêmio de recompensa quando ganhamos. O prêmio pode ser material, como o vestido da vitrine que virou seu pescoço quando você passava na calçada ou aquele novo jogo de videogame cheio de aventuras fantásticas (nessa frase, pode-se substituir as palavras vestido e jogo de videogame por artigos como carros ultrapotentes, joias ofuscantes, bugigangas high techs ou qualquer outro aparato que o dinheiro possa comprar). Mas logo você cansa do vestido e o novo jogo ficou velho. De nada adiantou.


Foi aí que tive outra ideia. O melhor estímulo que podemos ter para ultrapassar nossos obstáculos é um prêmio invisível: o direito de amolecer. Este sim é um galardão valioso, concedido a poucos. Para conquistá-lo é preciso passar por provas muito mais complexas como assumir fraquezas, emocionar-se em despedidas, aceitar que dias tristes existem, chorar perdas, ficar de luto até que a vida renasça em suas mais belas formas. E por falar em beleza, somente os raros homens e mulheres que se permitem passar pelo processo do amolecimento têm o privilégio de enxergar a real beleza da vida. Esses deixam-se derreter com uma música tocante, um abraço forte, palavras que falam ao coração e gestos que nos tiram de um cotidiano brutalmente competitivo e de padrões congelados em uma sequencia frenética e automática.


Derreter-se não quer dizer fragilizar-se. Depois de aquecer a alma com o calor das emoções, solidificam-se sensações extremamente consistentes. Cria-se o que se chama de resiliência, um superpoder que somente os corajosos podem conquistar. Ser resiliente é aceitar os seus medos e dificuldades e nem por isso correr deles. É ser firme, sem precisar ser duro. É ter a ousadia de errar e a capacidade de se recuperar. É ser forte, sem precisar substituir uma pedra de gelo por um coração pulsante, cheio de emoções para sentir e amor para doar. Afinal, o amor não sai de moda, não envelhece. Amor é bom, todo mundo gosta, mas só existe para os corajosos.


Bom derretimento!



Classificado em 4º Lugar no 3º Concurso de Crônicas da ALARP

domingo, 18 de março de 2012

AVIVAR

Viva alma, pulsante em mim.
Te desvendo no invisível, infinitas sutilezas. Contemplar.

Catar ventos do amor, girar sóis do coração. Transmutar.

Sublime plenitude, liberta e acalenta. Sintonizar.

VERSUS EGO

Perder o conforto para ficar com a beleza.
Perder a paz para ganhar a briga.
Perder o sentimento para colecionar sensações.
Perder a criatividade para não sair do padrão.

Perder quilos de felicidade para manter o ego em sua mais perfeita forma.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

ESCAVADEIRA INTERIOR

Grossas camadas cobrem nosso recôndito interior.

Só se chega ao cerne de nosso ser depois de uma longa e venturosa viagem. É preciso atravessar as pontes do medo, passar pelas penumbras do inconsciente para despistar o ego, cavucar e recavucar traumas, arrancar as superficialidades pela raiz, demaquilar inúmeros padrões impregnados em nossa estrutura para então encarar-se de cara limpa. Um encontro entre partes que nunca deveriam ter se dissociado. Um reencontro.

Ficar de frente a frente com ela, pura, preciosa, sagrada: sua essência.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

COMPROMETIDA, PORÉM LIVRE

Não, eu não quero ser tampa de panela nem metade de nenhuma laranja. Quero ser inteira.
Alguns clichês sobre o amor martelaram tantas vezes em nossas cabeças que nos deixaram tontos a ponto de acreditar em tolices no mínimo piegas e enfadonhas.

Romantismo é bom, eu gosto sim, mas daí a perder o individualismo é um caminho muito longo, no qual eu nem quero dar os primeiros passos. Que coisa mais chata essa de sanguessugar o outro e desfilar com coleira por aí. Isso pra mim não é amor, é dependência crônica.

Nem com toda a afinidade do mundo dois cidadãos irão concordar com todos os pensamentos, ter os exatos mesmos gostos, vontades, planos, necessidades, valores e cronogramas. É simplesmente impossível combinar em tudo, ao mesmo timing.

Ah, mas quem gosta concessões, certo? Claro, isso é preciso, saudável, gentil e maduro, desde que a concessão seja exceção e não regras ermeticamente fechadas para egoisticamente prender a pessoa amada e deixá-la infeliz sim, porém juntinho de você.

Pois eu acho que o bom mesmo é ser comprometida, porém livre para ser indivíduo individual, com personalidade própria, que escolhe estar com alguém simplesmente porque gosta pra caramba.

03/01/2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O TEMPO DE TUDO QUE TEM

Sabe aquele papo de “Tudo tem seu tempo”? Pois essa história você já ouviu tantas vezes da boca da sua avó, do seu melhor amigo e de tantos outros que queriam te consolar.

Você ouviu isso quando o telefone não tocou, quando você não conseguiu aquele emprego dos sonhos ou a tão esperada promoção. Você ouviu isso quando o óvulo não fecundou, quando a viagem não rolou ou quando a paquera não engatou em namoro. Você ouviu isso toda vez que sua ansiedade saiu em disparada e encontrou um obstáculo pela frente. Pode ser que você tenha levado apenas precisado desacelerar, mas pode ser que e você tenha levado um belo tombo com direito a sequelas, mas nada suficiente para fazê-lo aprender a segurar as rédeas do seu galope interior.
Tá, tudo bem, você pode até conseguir amansar um pouco o bicho com muita meditação, reflexão, yoga, sexo tântrico, mas não tem mantra que chegue para você aprender de vez a lição. Hora ou outra você se vê contrariado pela autoridade do tempo, que não respeita quereres, nem choros, nem velas.
O Senhor Tempo é dono do seu nariz e não se comove com data de aniversário, espírito de Natal, promessa ou greve de fome. Ele tem suas próprias regras e sua sabedoria é muito maior que nossa vã conscienciazinha pode entender.

27/12/2011